Brasileiras fazem detox das redes sociais para usar a web com mais qualidade

Se você não aguenta mais ver foto de pet e gente postando besteira na rede social, se desconfia que ela sequestra seu tempo e interfere em suas relações, promovendo crises de ciúmes com o namorado e os amigos… não é a única. A tendência é desconectar, mas não muito! Basta uma dieta digital para uma conexão de qualidade

Alessandra precisou deletar uma briga de ciúmes em sua timeline do Facebook. Camila excluiu os “amigos” preconceituosos e defende que o melhor da vida acontece offline. Quantas histórias parecidas não ouvimos recentemente? Sumir das redes sociais, entretanto, não parece ser uma opção viável – sobretudo para a geração que tem entre 20 e 35 anos. Afinal, as festas mais bacanas são criadas através de eventos no Facebook e as imagens do Instagram funcionam como álbuns obrigatórios em círculos de amizade. Mulheres como Alessandra e Camila, então, passaram a reavaliar sua relação comas redes, às vezes tomando distância delas. Uma espécie de jejum digital temporário. “A tendência existe, apesar de não ser um movimento de massa (ainda). E foi deflagrada sobretudo pela ala feminina”, explica Pollyana Ferrari, professora da PUC-SP, consultora em mídias sociais e autora de livros sobre o tema. Na opinião da especialista, muitas saem por questões afetivas, como traição e ciúme, mas há quem apenas ache difícil administrar namorado, mãe, chefe e amigos no mesmo perfil.

Uma pesquisa realizada no início de 2013 pela consultoria SocialBakers (empresa especializada em análise de mídia social, que alimenta indústrias de marketing digital em 75 países)informa que, nos Estados Unidos, o país líder de adesões ao Facebook – na época, com159 milhões de usuários – registrava que, só no mês de abril, cinco milhões haviam saído da rede. Especialistas da área, porém, calculam que em dois ou três meses a maioria volta à ativa. É raro o rompimento definitivo num mundo tão mediado pela tecnologia, ainda mais entre os brasileiros! Segundo a SocialBakers, o Brasil foi o país que mais cresceu no Facebook: só em 2012, foram mais de 29 milhões de novas adesões. De acordo como relatório Brazil Digital Future in Focus 2013, lançado pela comScore – empresa de pesquisa de mercado especializada no mundo digital –, os consumidores brasileiros passam mais de 27 horas por mês conectados à internet. É a média mais alta na América Latina. Segundo o estudo, os acessos ao Facebook representam impressionantes 93% do tempo online.

Quem não se conecta pode sentir-se isolado, mas quem nunca desliga pode ficar viciado ou chato. “Tem gente que o filho nem nasceu mas já está escrevendo no Twitter”, diz Pollyana. “É over, mas sempre existe o meio termo. Por exemplo, eu participo de todas as redes, mas optei por desabilitá-las no celular. Não quero receber notificações o dia inteiro. Estabeleci limites.”

Para o psicólogo José Carlos Ribeiro, professor e coordenador do Grupo de Pesquisa em Interação, Tecnologias Digitais e Sociedade da Universidade Federal da Bahia, vivemos um paradoxo. De um lado, está o desejo de contato e partilha; de outro, o medo de perder tempo e privacidade. Os sentimentos ambíguos permeiam a relação com as redes. “Isso gera desconforto, mas abandoná-las, em geral, é uma estratégia temporária, que visa um novo modo de se conectar, mais satisfatório.” Pollyana concorda e acredita que a crítica às redes é só um “detox”, similar ao movimento do slow food, que surgiu para se contrapor à febre do fast food. E afirma que nem todas as frustrações são com a rede. “Se alguém briga online e deixa todo mundo ver o barraco, isso não é um problema da plataforma e sim das pessoas.” Nas tradicionais dietas detox, cortamos o que nos faz mal e selecionamos o melhor. O mesmo vale para o detox virtual, que lembra que quem comanda sua ação na rede é você.

“SAÍ DO FACEBOOK DEPOIS DE UMA BRIGA COM MEU NAMORADO”
Alessandra Chohfi, 39 anos, psicóloga de São Paulo, solteira, uma filha

“Lembro do dia em que decidi deletar meu perfil no Facebook. Eu tinha cortado o cabelo e, ao sair do salão, postei uma foto com o visual novo. Imediatamente, várias pessoas deram um like e comentaram: ‘linda’, o que é a coisa mais normal no Face. Acontece que um dos amigos do meu então namorado resolveu elogiar também. Foi o suficiente para ele ficar furioso e começar a brigar com o cara, no meu mural! Apaguei os comentários e liguei para ele. Foi um estresse. Decidi dar um tempo do Face. A seguir, bloqueei o namorado na vida real – terminei uma relação de dois anos e meio. Não responsabilizo a rede pelo episódio. Não é o Face que torna as relações frágeis, ele apenas deixa mais visível a fragilidade que já existe. O ex era possessivo fora das redes também.

Mesmo quando saí do ar, mantive meu perfil profissional de terapeuta, mas dois meses depois reativei o pessoal. O Facebook é prático, facilita o contato com os amigos. Tenho uns mil e conheço todos! Sou extrovertida, já morei em Santos (SP) e Jericoacoara (CE), adoro viajar e conversar comas pessoas, por isso estou conectada a várias, eu não queria perder isso e me isolar. Só que a rede exige maturidade. Quem não tem causa transtornos. Passei um tempo longe e, na volta, bloqueei muita gente, deixei meu perfil mais restrito. Não partilho mais nada com a categoria ‘público’ (visível a todos) e selecionei os grupos que podem ver minhas fotos pessoais. Não sofro com falta de privacidade, afinal, eu decido o que postar e quem poderá ler. Para paquerar, não vejo vantagens. Qualquer um pode criar perfil falso, mentir. Para mim, homem interessante é o real, que coloca a cara a tapa.

Acho perfeitamente possível ter uma vida de solteira movimentada – com paqueras e baladas – sem depender da rede. Meus amigos costumam me ligar ou mandar SMS, sabem que não estou sempre conectada. Trabalho em consultório, nem aciono a internet quando estou lá.

Gosto da rede, mas não sou viciada. Sei que esse risco existe, por isso monitoro de perto a minha filha. A Julia tem 10 anos, o limite de idade para entrar no Facebook é 13, mas na verdade isso não funciona. Na classe dela, todos estão conectados. Administrar a vida na rede dá trabalho, mas basta ter respeito e educação. Se isso funciona offline, por que não online?”

“DELETEI OS CHATOS E OS FASCITAS”
Camila Paluri, 26 anos, chef de cozinha do restaurante Madein Thai, de São Paulo, solteira

“Saí do Facebook duas vezes,irritada com posts ridículos, foto de gato, muita opinião sobre nada, lorota, gente querendo ostentar suas viagens, nada disso me interessa. Numa das vezes, passei quase seis meses longe, voltei porque senti falta dos amigos. Eu vivo num meio alternativo, frequento shows que não aparecem na programação dos jornais e da TV, só são divulgados na rede. Eu valorizo o encontro cara a cara, mas admito: é muito mais fácil conversar com os meus verdadeiros amigos pelo Facebook do que por telefone, até porque é grátis.

Mesmo quando deletei meu perfil pessoal, mantive o do meu restaurante e pedi para uma amiga cuidar. Não deu certo, as pessoas me mandavam recado no inbox do restaurante. E esse perfil profissional eu não podia deletar, porque a divulgação no feed funciona. A rede tem suas vantagens, mas quase saí de novo quando começaram as manifestações em São Paulo. Nunca vi tanta gente que jamais se interessou por política escrevendo como se soubesse do assunto! Sem contar os fascistas, os preconceituosos, ou gente que só escreve besteira. Deletei todo mundo. Foi para isso que funcionou o ‘detox’: antes eu aceitava todos que queriam me adicionar. Hoje, só aceito pessoas que conheço e tenho afinidade. Também aprendi a proteger meu tempo. Só me conecto quando estou no trabalho, não tenho smartfone e, quando viajo, esqueço a internet.

O problema é que o Facebook te deixa literalmente ‘enredado’ –ninguém sai de frente da tela, é hipnótico. Parece uma TV piorada, um reality show permanente. Mas nunca briguei na rede, mesmo quando via absurdos no feed, como posts racistas, sempre fiquei na minha. Evito opiniões e fotos, meu mural só tem música, vídeos do Youtube. A verdade é que desconfio do Facebook, acho que estimula um comportamento invasivo. Você vê a foto de um cara bonito, entra no mural, e de repente está checando quem é a namorada dele. E por quê? Por nada, só porque é fácil. Claro que tem paquera na rede, como em qualquer lugar. Já fui abordada em mensagens inbox e recebi ‘cutucadas’, mas não gosto. Se alguém quiser me conhecer, que se apresente. Mas hoje, só a mãe telefona pra gente! O resto do mundo se comunica pelas redes. Tudo bem. Eu sou livre, entro e saio quando eu quiser de qualquer lugar. Não é diferente como Facebook.”

“CORTEI O VÍCIO”
Bárbara Laís Bressani, 26 anos, dentista, solteira

“Já faz um ano que pulei fora do Facebook. Perdia tempo na rede e estava viciada. Se ia para a praia e não tinha sinal de celular ficava desesperada. Também rolaram briguinhas idiotas com meu namorado, por causa de ciúmes dos dois lados. Perguntei para ele: ‘O que acha de a gente sair?’. Ele adorou a ideia. Saímos os dois e pronto. Mas mesmo que não estivesse namorando, eu não voltaria. Não preciso do Face para ser convidada para festas, os amigos de verdade continuam me procurando. Vários me perguntaram: ‘O que aconteceu, você me bloqueou?’. Quando expliquei, todo mundo entendeu. Nunca fui de polemizar na rede, mas vi barracos de amigas. Por exemplo, uma delas saiu com o ex da outra. Preferia não saber, não era da minha conta, mas os posts delas, cheios de indiretas, apareciam no feed.

Como todo vício, na hora que desconectei foi difícil, mas depois só senti falta de conversar com as amigas que moram longe, mas para isso tem o Whatsapp, o Skype, o e-mail.

Hoje, economizo tempo e qualifiquei o uso da internet – em vez de fuxicar, me concentro nas pesquisas da minha tese. Também voltei a dar atenção às pessoas, minha mãe reclamava que, mesmo sentada à mesa com ela eu estava ausente, presa à tela do celular. De madrugada, o telefone vibrava comas atualizações do Face, isso me irritava. Sair me fez bem, mas não sou contra as redes. Tanto que há cinco meses entrei no Instagram, posto fotos e sigo algumas amigas. O Facebook me deixava ansiosa, o Instagram é mais tranquilo. Prefiro assim.”

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