O ativismo de Facebook funciona?

Milhões de usuários cobriram sua foto com um arco-íris, abrindo a discussão sobre a validade de se fazer política on-line05072015-ILUSTRA-Galindo-kvl-U1013129041380oB-1024x576@GP-Web

Muita gente viu na semana passada as fotos de seus amigos no Facebook repentinamente serem recobertas por um filtro com as cores do arco-íris – era uma maneira de apoiar a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de permitir o casamento entre homossexuais, como já acontece no Brasil desde 2013. Segundo o Facebook, 26 milhões de internautas no mundo todo fizeram o mesmo.

No próprio Facebook, no entanto, surgiram dúvidas sobre a eficácia de medidas como essa: o ativismo de internet, afinal, poderia ser incapaz de mudar algo na vida real, segundo alguns críticos. Até porque o algoritmo que organiza a informação recebida pelo usuário faz com que, em geral, as pessoas recebam maior quantidade de informações que vêm de pessoas próximas e que, por consequência, tenderiam a pensar de maneira parecida.

Um indício de que o fascínio com o poder das redes sociais para divulgação de temas políticos poderia estar sendo exagerado vem do fato de que os milhões de usuários que recobriram a foto de seu perfil com as cores do movimento gay representam menos de 2% das contas do Facebook (no Brasil, a porcentagem não é divulgada) – e quem viu a maior parte dos amigos trocar a imagem pode estar simplesmente associado a mais pessoas que são favoráveis ao casamento gay.

Para o professor de comunicação política Wilson Gomes, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), no entanto, isso não é motivo para desprezar a força do ativismo on-line. “Primeiro, porque não é verdade que as pessoas só convivam com iguais nas redes. Se fosse assim, não haveria a ‘trolagem’, não haveriam confrontos. E também porque as pessoas não são monolíticas: podem concordar com uma opinião de seus amigos, mas não com outras”, diz.

Convivendo com pessoas que pensam diferente e que exibem, às vezes em grandes grupos, simultaneamente, a mesma posição, torna-se mais provável que as pessoas passem a refletir mais sobre um tema – ou porque não tinham pensado nele, ou porque começam a admitir que o argumento dos amigos é válido. Ou até por questões psicológicas, conforme diz o professor Jamil Marques, do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará (UFC). “Temos sempre medo de ficarmos isolados, e às vezes isso pode nos fazer rever posições”, diz.

Marques reforça o que disse o filósofo Kwame Anthony Appiah, de Princeton. Em seu livro O Código de Honra, Appiah afirma que muitas revoluções morais se dão porque as pessoas que resistem à mudança, com o tempo, passam a se sentir ridicularizadas. Ele cita o exemplo dos chineses que obrigavam as mulheres a deformar os pés para que ficassem artificialmente pequenos. Quando a convivência com os ocidentais aumentou, o costume foi abolido para que a China não ficasse mal no cenário internacional.

Por outro lado, afirma o cientista político Sérgio Braga, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o ativismo, somado aos algoritmos das redes sociais, podem também levar as pessoas não a mudar suas posições, mas a recrudescer a divergência. “Esse é um risco real da internet. Criar intolerância com quem pensa diferente”, diz.

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