Mais sessões de terapia: o botão “não curtir” está a caminho

Vejo a vinda do botão “não curtir” como algo bastante saudável para o Facebook. Todos os usuários e até mesmo as marcas serão bem mais criteriosos antes de cada postagem

Em uma sessão de perguntas e respostas realizada na sede do Facebook em Menlo Park, Califórnia, Mark Zuckerberg finalmente assumiu que o botão “não curtir” (ou “dislike”) pode brotar a qualquer momento em nossas timelines. Muito mais que um mero novo botão que aparecerá no Facebook de mais de 1,4 bilhão de terráqueos, essa novidade carrega um aspecto bastante simbólico e que exige de nós algumas reflexões pertinentes. Zuckerberg, o jovem de 31 anos, fundador do Facebook e dono de uma das maiores fortunas do mundo, disse que esse novo botão em que eles estão trabalhando seria uma forma para as pessoas expressarem empatia ou não por algo. Ele disse que o Facebook está muito perto de tê-lo pronto para o teste do usuário, pois o “não curtir” tem sido constantemente solicitado por alguns usuários desde a introdução do agora icônico botão “like” em 2009. Nesse sentido, podemos analisar o poder simbólico do botão “curtir” sob diversos aspectos.

Quando alguém posta algo, uma foto, uma música, um vídeo, um selfie, temos hoje a opção de clicar o botão curtir ou simplesmente não fazer nada. E o fato de não fazer nada diante de uma publicação não significa que não curtimos. Mas pode significar, sim, que não curtimos. Quando alguém comunica o falecimento de alguém no Facebook, ou quando alguém usa a timeline como verdadeiro muro de lamentações (o que é muito comum, pelo menos na minha timeline), é estranho clicarmos em curtir, pois seria, no mínimo, estranho alguém colocar o polegar pra cima diante de algo que, teoricamente, deveríamos lamentar.

Nós não precisamos dizer por que estamos dando um like em uma determinada publicação. Apenas damos um like ou não damos. E, hoje em dia, é por meio de nosso nossos likes, por conta de nossas expressões de gosto, que falamos para os demais usuários quem nós somos, quem nós não somos, quem gostaríamos de ser. Enfim, vivemos em um mundo onde nossos likes dizem muito sobre nós.

Eu sou aquele cara que curte aquela fanpage, ou sou aquele indivíduo que curte aquele artista. Ou então eu sou aquele usuário que não dá “like” naquele seriado, naquela marca etc. São nossos likes que nos singularizam diante dos demais. E os likes dos demais em nossas postagens também nos agradam, certo? O like do outro nos preenche algum tipo de vazio ou espécie de incompletude. Parece que nossa vida não cabe no nosso corpo apenas. Precisamos postar. Nossos pensamentos são polêmicos? Precisamos postar. Comer em bons restaurantes não tem como ser um trivial ato de se alimentar. E nós precisamos postar. Os lugares que frequentamos são sensacionais? Precisamos postar. As nossas viagens e as paisagens que nos deparamos não cabem apenas em nós, e precisamos postar. Minha vida é infestada de momentos memoráveis? Precisamos postar. Meu ritmo de vida é sexy, intenso, frenético, correria. Precisamos postar essa narrativa para demais usuários apreciarem, ou não. Meus filhos são os mais lindos e a vida deles também é uma linda história. Precisamos postar. As coisas que vivo, que sinto, que olho, não podem ser limitadas apenas ao meu sensório. Precisamos postar!

Por que isso acontece hoje em dia? Uma tese muito simples e que, de alguma forma, responde isso é: o ser humano é vaidoso, sempre foi e sempre será. E empresas como Facebook, Snapchat, Instagram e afins apenas entenderam isso de forma sublime. A câmera frontal de nosso smartphone é o grande responsável por esse fenômeno das postagens intensas de nosso cotidiano? O Instagram nos deixa mais vaidosos? Claro que não, cara pálida! O protagonismo nunca está no “device” e sempre nas pessoas. É tudo uma questão de como as pessoas de apropriam, é tudo uma questão de apropriação social. Nunca a tecnologia, nunca o dispositivo, nunca o botão like ou dislike, mas sempre como a gente se apropria deles.

O fato é que evidenciamos todos os dias em nossas timelines uma grande quantidade de pessoas narrando suas vidas, descrevendo com riqueza de detalhes absolutamente tudo que acontece em seus cotidianos. Às vezes, nos deparamos em nossas timelines, alguns conteúdos que, ao nosso olhar, são tolos, bobos, como frases feitas, figurinhas dos Ursinhos Carinhosos, coisas teoricamente desinteressantes. Mas para aquelas pessoas que estão postando, trata-se de algo muito relevante. São conteúdos desinteressantes aos nossos olhos, mas para a outra pessoa certamente aquilo pode significar muito. A foto do bebê que nasceu, o selfie no banheiro da escola, o sorriso forçado logo pela manhã, a foto do gato (todo são iguais!), tudo tem um significado e uma importância simbólica para o usuário. Quem disse que os nossos conteúdos que postamos são os mais interessantes e relevantes? Não sei. Quem disse que a nossa estratégia de uso de redes sociais é a mais tchananã? Certamente não é.

O fato é que o botão “não curtir” está vindo e cada um de nós desenvolve (consciente ou inconscientemente) uma estratégia de uso e de apropriação de redes sociais online como o Facebook. Vejo a vinda do botão “não curtir” como algo bastante saudável para o Facebook. Todos os usuários e até mesmo as marcas serão bem mais criteriosos antes de cada postagem. Isso tende a dar uma “limpada” em nossas timelines de coisas pouco relevantes aos nossos olhos. Afinal receber um “não curtir” em algo que publicamos fará aflorar em nós um novo sentimento que nosso sensório ainda não conhece no mundo digital. Já imaginou? O sujeito posta aquele mega selfie com um lindo pôr do sol ao fundo no prédio mais alto de Nova York. Daí vem o outro e dá um “não curtir”. Putz! Sessãozinha de terapia (via Facetime) com o psicólogo lá de Nova York mesmo. Urgente!

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