“Usaram minhas fotos nas redes sociais e até expuseram minha filha”, diz estudante detida por pichar muro em SP

Prefeitura declarou que “está sempre aberta para colher e apurar eventuais reclamações”

A estudante de Direito Maira Pinheiro foi detida pela GCM (Guarda Civil Metropolitana) na madrugada deste sábado (4), por volta das 3h da madrugada suspeita de pichar um muro na Rua Santo Antônio, região central da capital paulista.

Com grande repercussão na imprensa, o caso está sendo enquadrado na lei anti-pichação, uma das principais frentes da gestão de João Doria e a estudante é a segunda pessoa a ser multada pela infração, segundo ela.

Maira, em nota e vídeo, se pronunciou contra a medida e ainda fez acusações de abusos na abordagem da GCM.

Em nota, a assessoria de imprensa da Prefeitura de São Paulo explicou que “com relação ao que afirma a estudante sobre a atuação da Guarda Civil Metropolitana, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana está sempre aberta para colher e apurar eventuais reclamações. Mas, vale ressaltar, que a acusada não relatou nenhuma má conduta da GCM no Boletim de Ocorrência.”

Em entrevista exclusiva, Maira Pinheiro fala ao R7 sobre a tensão na abordagem e discute a política anti-pichação do prefeito de São Paulo:

R7: Em uma nota, e no vídeo, você relata que foi “intimidada, constrangida e assediada” pela GCM. Como foi essa abordagem?
Maira Pinheiro: Estava subindo a rua Santo Antônio em direção a minha casa quando fui fechada por duas viaturas. Os guardas já vieram direto em mim falando “entrega a lata aí, mocinha.”

Eles foram agressivos com você, te ameaçaram?
Um deles passou um bom tempo querendo me assustar e dizer que eu tava presa e que minha vida ia acabar. O outro era mais tranquilo. Eu perguntei diversas vezes pelo nome dos dois e eles só me responderam depois de umas duas horas rodando pelos cidade. Eu perguntei se eu poderia ir embora a hora que eu quisesse e eles disseram que não. Então eu disse que eu tinha o direito de saber o nome de quem estava me conduzindo e para onde eu estava sendo levada.

Por quanto tempo você ficou, como disse no vídeo, “passeando” sem saber para onde te encaminhariam?
Eu fui detida por volta das 3h e cheguei na delegacia por volta das 5h.

Quantos guardas estavam na ação?
Na abordagem pelo menos quatro, talvez mais, mas não tenho certeza. Uma das viaturas com dois guardas realizou a condução.

Por que te levaram ao 8º DP? Não há outras delegacias mais próximas?
Não sei por que me levaram ao 8º DP, passaram por outras delegacias antes e não sei porque não paramos nelas. Uma amiga foi me procurar no 1º DP (na região da Sé) que seria a delegacia competente para o registro da ocorrência e eles já estavam sabendo da minha detenção, inclusive falaram para minha amiga que eu ficaria presa e não ia poder sair.

Não sei porque não registraram no 1º DP nem porque me levaram ao 8º, mas quando cheguei lá um dos policiais civis riu da minha cara e falou que ia f**** com minha vida.

O perito apareceu lá depois e após a minha recusa em prestar depoimento ficou me fazendo perguntas e provocações dizendo que elas não constariam no BO (boletim de ocorrência), mas me recusei a responder. Além disso, pegaram os dados da advogada que me acompanhou, mas não colocaram no TCO (Termo Circunstanciado de Ocorrência) e aparentemente o escrivão puxou os dados dela e ela depois recebeu ligações com ameaças em sua casa.

Você assinou o termo de compromisso se prontificando a limpar o muro em 72 horas?
Apenas assinei o termo circunstanciado, mas não fui interrogada e nem notificada de nada. Não concordo com a descrição dos fatos da forma que está no TCO.

Você será autuada?
Não sei.

O quanto você foi pressionada?
Eu tenho noção dos meus direitos e o privilégio de ter assistência jurídica e orientações. Sabia que eles não poderiam me manter presa e que eu estava apenas detida. Que assinaria um TCO e seria liberada em seguida e que eu não tenho obrigação de depor se eu não quiser. Também sei que os elementos de informação obtidos na fase policial a partir de depoimentos não valem como prova no processo. Então me senti pressionada, mas a pressão não funcionou tanto assim.

No vídeo você conta que está sendo usada como bode expiatório. Por que você acha que foi colocada nesta situação?
Acredito que esse tema da pichação, e da arte de rua como um todo, é muito mal compreendido e a escolha de transformar isso na grande bandeira política da gestão do prefeito João Doria é muito mais uma escolha de marketing do que uma questão de políticas públicas e de melhorar a cidade.

Criaram uma narrativa e uma personagem para contar essa história de uma maneira que deslegitime a pichação e retrate ela como uma expressão de rebeldia sem causa, quando na verdade isso é uma cortina de fumaça para desviar o foco do caráter higienista, classista e racista da perseguição à cultura de rua e à ocupação de espaço público que vem sendo empreendida pela gesto Doria.

O prefeito chegou a compartilhar em sua página pessoal uma foto com a minha cara e os dizeres “tolerância zero”. Minha caixa de entrada está desde ontem lotadas de mensagens de ódio e ameaças e isso foi incentivado pela cobertura sensacionalista que foi feita. Repetiram meu nome e minha filiação ao PT (Partido dos Trabalhadores) à exaustão. Usaram minhas fotos nas redes sociais e até expuseram minha filha.

Tenho medo do quanto essa repercussão pode me prejudicar, mas ao mesmo tempo sei que há muito mais coisa em jogo do que a minha imagem e o que estão fazendo comigo. O que está em jogo é a cidade e a sociedade que queremos construir e eu estou sendo usada como meio para um projeto autoritário se colocar publicamente de forma enviesada e sensacionalista.

Qual era a frase completa que você estava escrevendo no muro?
Dizem que eu tentei escrever “as mães também gozam”.

Qual era a mensagem que você pretendia passar com ela?
Acho que a frase fala por si. Também estou refletindo sobre ela até agora.

Você está sendo rotulada como pichadora, mas é nítido que a sua frase de protesto é muito diferente das pichações que temos na cidade de São Paulo. Por que você acredita que há essa confusão?
Eu sou MC (mestre de cerimônias), participo de batalhas de rap e construo a cultura hip-hop, vejo o grafite e o pixo como expressões artísticas e culturais.

Eu não me definiria como pichadora, admiro a cultura do picho, e quando comecei a entender mais sobre ela passei a ver a cidade de outra forma. É uma forma das pessoas dizerem “estou aqui” e de se manifestarem livremente.

Depois de tudo isso que vem acontecendo acredito que a minha contribuição pode ser no sentido de ajudar a construir uma rede com juristas e representantes da cultura de rua como um todo para pensarmos formas de garantir nosso direito de se expressar e ocupar o espaço público resistindo às tentativas de criminalização.

Procurada, a SSP ainda não se posicionou sobre o caso e as denúncias feitas pela estudante.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s